Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Pensamentos.ao.vento

Assumo sem qualquer tipo de pudor o gosto imenso que tenho pela escrita, e pelo ato de escrever palavra após palavra... na construção de momentos de reflexão e procurando embelezar os nossos dias!

Pensamentos.ao.vento

Assumo sem qualquer tipo de pudor o gosto imenso que tenho pela escrita, e pelo ato de escrever palavra após palavra... na construção de momentos de reflexão e procurando embelezar os nossos dias!

26
Mai20

Hoje eu estou apenas cansada - Parte II


Ana Paula Marques

artigo APM.jpg

Eu não sou assim, este é apenas um momento!

Vivo num tempo perdido de mim e em mim. Sei que não encontro o que quero e este desassossego incomoda-me e não me permite descansar o espírito.

É o desassossego da inconstância perdida no caminho, percebo que me falta a orientação… não a dos valores, porque esses são intrínsecos, falta-me perceber porque não consigo ser igual aos outros. Por que razão se os outros acham sempre que está tudo bem, eu hei-de encontrar uma questão que não está bem explicada, ou uma qualquer razão que inexplicavelmente não percebo?

Não nasci para ser calimero, mas é bem verdade que tenho sido presenteada por grandes maldades nesta minha vida, a justiça nem sempre funciona e os malvados nem sempre são responsabilizados pelos seus atos.

Para quando ver a justiça acontecer e as pessoas pagarem por todo o mal que cinicamente espalham em sua volta, com o ar mais obsceno que possamos imaginar?

Estas pessoas não têm consciência? Como conseguem descansar? Fazer mal trará satisfação ou alegria a alguém? Será que nem por um momento apenas pensam que um dia poderão vir a pagar pelo mal que fizeram?

Há marcas da maldade humana, que nunca passam e pessoas que são tão malvadas que é impossível apagar das nossas vidas, por muito que se tente. Lamento pela maldade que não consegui evitar, mas esta é uma mágoa que me assombra o coração e que me escurece a alma.

É inevitável que aconteça, ninguém é de ferro, eu pelo menos não o sou.

O que me salva e o que me mantém a pessoa que continuo a ser, uma sobrevivente, é toda a envolvência que tenho na vida, a sorte de ter família, amigos, colegas e até apenas conhecidos, que me fazem sentir que afinal vale a pena.

E me fazem sentir especial, porque sou verdadeira, genuína e assim simplesmente eu, humana e carregada de defeitos. Mas pura, no tratamento para com os outros.

Temos que acreditar que o bem supera o mal e que quem faz mal, inevitavelmente terá que pagar pelos seus atos, mas na realidade, e como diz o povo “com o mal dos outros posso eu bem”.

É também verdade que sabe bem pensar que um dia iremos poder observar os malvados da nossa vida pagar pelo mal que fizeram, porque nós podemos até perdoar, mas esquecer… existem situações que são muito difíceis de esquecer, eu diria mesmo impossíveis!

Há acontecimentos que nos perseguem, e vagueiam no nosso pensamento, dia após dia, incomodam-nos em vários momentos fechando-nos o nosso sorriso e ensombrando o nosso olhar.

É um facto que o tempo ajuda a dissipar tudo, mas não apaga, não dilui a sensação de injustiça que se viveu. Estará sempre presente o requinte de malvadez do executante da nossa injustiça… é demasiado mau.

Afinal, tudo o que nos acontece, é apenas aquilo que fomos capazes de suportar. Nem mais nem menos, apenas aquilo que somos capazes de receber, e eu recebi, e de bandeja. Se era o que merecia, não sei. Diria que não. Mas quem sou eu para julgar? Sei apenas que foi intenso, foi injusto e foi muito doloroso, levarei uma vida a superar, se é que algum dia poderei dizer que superei.

Guardo rancor ou raiva? Não, guardo compaixão pelas almas pequenas que andam por este mundo e que se acham grandes, guardo misericórdia pelos seres miseráveis que existem e que se consideram pessoas de bem e que afinal são capazes de tamanhas atrocidades para com os outros.

“Não precisamos converter-nos uns aos outros por meio dos nossos discursos ou pelas nossas palavras. Só podemos fazê-lo com as nossas próprias vidas. Que as nossas vidas sejam um livro aberto para que os outros possam estudá-lo.” (Gandhi)

 

22
Mai20

Uma Edição limitada...


Ana Paula Marques

AM_ARTIGO10052020.jpg

 

Não é apenas porque nasci neste espaço temporal, mas de facto os nascidos entre os anos 50 e 80 do século passado, nasceram num tempo que foi responsável por ver desabrochar e ver crescer aquela que foi uma geração de pessoas muito especiais.

Atrever-me-ia mesmo a afirmar que os nascidos neste período pertencem a uma edição limitada de seres humanos, em face das circunstâncias e do espaço temporal em que lhes foi permitido nascer e crescer, e no fundo o que fez de nós seres especiais, importa dizer isso ao mundo.

É bem verdade que o tempo e as circunstâncias foram os nossos maiores aliados, e fizeram de nós esta geração tão especial, afinal quando éramos crianças podíamos andar de patins sem ter de usar joelheiras e/ou capacetes. As manchas negras que por vezes nos apareciam nos joelhos ou nos tornozelos, ou em qualquer outra parte do corpo, não eram fruto de violência, eram apenas o resultado dos nossos processos de aprendizagem, e de quedas e maus jeitos que dávamos quer fosse a aprender a andar de bicicleta, nas corridas com os amigos, ou em milhentas outras brincadeiras.

Uma bênção gigante que esta geração teve, porque podíamos divertir-nos na rua sem a preocupação dos raptos, brincávamos na inocência pura de quem é criança e não consegue perceber maldade em nada, provavelmente porque não estava também tão propagado o medo na sociedade.

O que é facto é que não tínhamos medo de brincar na rua com os amigos, muitas vezes até escurecer, e os nossos pais também não tinham receios dessa natureza, sabiam que estávamos bem.

Não tínhamos qualquer problema em partilhar os nossos brinquedos com os amigos e até de os emprestar para que os levassem para casa e depois nos devolvessem, esta prática perdeu-se no tempo, a verdadeira partilha dos brinquedos e a devolução ao dono no fim do tempo combinado para levar o brinquedo emprestado. Não havia necessidade de portas de proteção blindadas em nossas casas, nem os medicamentos careciam de tampas de proteção de segurança para crianças.

Brincar de pé descalço não fazia mal aos pés, para além de lhes conferir alguma sujidade, era apenas pura brincadeira e contacto real com a terra… nem sequer havia a necessidade de suplementos alimentares para aumento do apetite, quantos de nós criamos os nossos próprios brinquedos como os aviões ou os barcos de papel. E que beleza e simplicidade tinham estes inocentes brinquedos.

É verdade que não existiam portáteis, nem computadores e menos ainda smartphones, mas o que é um facto também é que tínhamos verdadeiros amigos, reais companheiros das brincadeiras e tantas vezes também dos disparates que apenas nas nossas mentes passavam, muitos desses amigos que guardamos para a vida. Quantas histórias para contar.

Não precisávamos de avisar os amigos quando os queríamos visitar, aparecíamos e pronto, não havia essa necessidade, era instituído que se podia aparecer na casa dos amigos para brincar. Avisar? Não era necessário, nós considerávamo-nos parte da família dos nossos amigos, afinal como diz o povo: “os amigos são a família que escolhemos”, certo?

Contudo, também é verdade que aprendemos a ser responsáveis pelas nossas ações, e sobretudo preparados para assumir as consequências de quando errávamos ou estávamos menos bem em determinada situação.

A verdade é que tínhamos a liberdade da responsabilidade, e as oportunidades, que fizeram de nós pessoas de uma grande alma.

Diria mais, nós somos provavelmente a última geração que escutou os seus pais e que se permite ouvir também os seus filhos.

Que não nos esqueçamos de dizer mais vezes “obrigada” e “gosto de ti” que a nossa vida reflita a bênção que tivemos por ter nascido neste tempo em que ainda era tão bonito ser criança, e que o nosso exemplo sirva para ajudar a construir um mundo melhor, mais sublime e mais generoso, tal e qual como a nossa infância foi, harmoniosa e pura.

Somos uma geração incomparável que teve à sua disposição as melhores oportunidades temporais dos últimos anos, e crescemos antes destes tempos de medo, receios e desconfianças, em suma destes tempos que agora vivemos.

Mais sobre mim

Pesquisar